
Reprodução/TV Globo
A realização de um megashow de Shakira na orla de Copacabana, com público estimado na casa dos milhões, não se limita à dimensão cultural ou ao entretenimento de massa. O evento se insere em um movimento mais amplo, no qual grandes cidades passam a utilizar espetáculos dessa natureza como instrumentos de dinamização econômica, reposicionamento internacional e atração de fluxos turísticos de alta intensidade.
No caso do Rio de Janeiro, a estratégia já apresenta sinais de consolidação. Estimativas divulgadas pela Prefeitura indicam que a apresentação deve gerar impacto econômico próximo de R$ 800 milhões, impulsionado por gastos diretos e indiretos em hospedagem, alimentação, transporte e comércio. Trata-se de um volume expressivo, sobretudo quando considerado o curto intervalo de tempo em que essa movimentação se concentra.
Eventos de grande escala como política econômica urbana
A repetição de eventos dessa magnitude sugere a formação de um modelo. Nos últimos anos, apresentações internacionais realizadas em Copacabana passaram a operar como catalisadores de consumo imediato e visibilidade global. Mais do que iniciativas pontuais, esses espetáculos começam a delinear uma política urbana baseada na economia da experiência.
Esse fenômeno dialoga com uma tendência internacional conhecida como “gig tripping”, em que deslocamentos turísticos são motivados prioritariamente por eventos culturais de grande porte. Nesse contexto, o destino deixa de ser apenas um local de passagem e passa a ser escolhido em função de um acontecimento específico, capaz de justificar a viagem e ampliar o tempo de permanência.
A América Latina, historicamente periférica nesse circuito, passa a ganhar relevância. O Rio, em particular, reúne características favoráveis: apelo paisagístico reconhecido internacionalmente, capacidade de mobilização de grandes públicos e infraestrutura urbana que, embora tensionada, consegue absorver eventos dessa natureza.
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Repercussões para além da capital
Ainda que o epicentro do espetáculo esteja em Copacabana, os efeitos econômicos ultrapassam os limites da capital. Municípios da Região Metropolitana, como Niterói, passam a integrar esse circuito de forma indireta, seja pela oferta de hospedagem alternativa, seja pela circulação de trabalhadores e consumidores atraídos pelo evento.
Essa expansão territorial do impacto revela um aspecto relevante: a economia gerada por grandes eventos tende a se distribuir de forma difusa, alcançando cadeias produtivas diversas e ampliando a escala dos benefícios. Ao mesmo tempo, evidencia a interdependência entre municípios que compartilham fluxos urbanos intensos.
O retorno sobre o investimento público
Um dos pontos centrais desse modelo reside na relação entre investimento público e retorno econômico. Experiências anteriores indicam que, quando bem estruturados, eventos desse tipo podem gerar retorno significativamente superior aos custos envolvidos em sua realização.
No entanto, a análise não deve se restringir ao saldo financeiro imediato. Há ganhos intangíveis associados à projeção internacional da cidade, à consolidação de sua imagem como destino global e à atração futura de novos eventos e investimentos.
Limites e desafios estruturais
A expansão desse modelo, contudo, impõe desafios. A concentração de grandes públicos em espaços urbanos densos exige respostas eficazes em áreas como mobilidade, segurança e ordenamento territorial. A capacidade de planejamento e execução do poder público torna-se, portanto, elemento decisivo para a sustentabilidade da estratégia.
Além disso, a recorrência desses eventos levanta questões sobre o equilíbrio entre uso turístico e qualidade de vida da população local. A gestão desse tensionamento será determinante para a continuidade e legitimidade do modelo.
Uma janela de oportunidade para o Brasil
O caso do Rio de Janeiro sugere que o Brasil dispõe de condições para se inserir de forma mais competitiva no circuito global de grandes eventos. A combinação entre potencial turístico, capacidade de mobilização e interesse internacional cria um ambiente propício para a expansão dessa agenda.
Nesse sentido, o show de Shakira não deve ser compreendido como episódio isolado, mas como parte de um processo em curso. Um processo que, se bem conduzido, pode reposicionar o país não apenas como destino turístico, mas como protagonista na economia global do entretenimento.
Projeção internacional e repercussões políticas do modelo
Outro efeito relevante desse ciclo de megashows é de natureza simbólica e política. A sucessão de eventos de escala global na Praia de Copacabana funciona como um sinal ao cenário internacional de que o Brasil possui capacidade logística, técnica e institucional para sediar espetáculos entre os maiores do mundo.
Não por acaso, os últimos anos consolidaram uma marca inédita: o encerramento da turnê The Celebration Tour, de Madonna, em 2024, reuniu cerca de 1,6 milhão de pessoas e se tornou o maior público da carreira da artista; em 2025, Lady Gaga repetiu o feito ao registrar, na mesma orla, o maior show de sua trajetória; e, em 2026, a apresentação de Shakira segue essa mesma linha, com estrutura ampliada e projeção global.
Esse encadeamento reforça o posicionamento do Rio de Janeiro como uma das principais plataformas internacionais para grandes eventos culturais ao ar livre. Ao mesmo tempo, os desdobramentos desse modelo alcançam o campo político, ao associar a realização desses espetáculos a agendas públicas de incentivo à cultura, turismo e economia criativa. Nesse contexto, a estratégia também dialoga com lideranças políticas em diferentes esferas — tanto no âmbito federal, ao reforçar a imagem institucional de apoio à cultura e ao entretenimento, quanto no plano local, onde iniciativas dessa natureza se conectam a projetos de gestão urbana e projeção política de seus idealizadores.
Niterói e o efeito indireto da economia dos grandes eventos
Nesse cenário, Niterói surge como um vetor estratégico complementar, ainda que não seja o palco direto dos megashows. Localizada a poucos quilômetros de Copacabana, a cidade se beneficia de forma indireta, mas consistente, dos fluxos econômicos e simbólicos gerados por eventos dessa magnitude.
O posicionamento recente do município reforça esse papel: Niterói foi apontada como a cidade com maior soft power do Estado do Rio de Janeiro, segundo o estudo Mapa Rio Soft Power, divulgado pela Firjan em 2025. O conceito, associado à capacidade de influenciar e atrair por meio de ativos culturais, institucionais e identitários, ajuda a explicar como o município converte qualidade de vida, patrimônio arquitetônico, presença universitária e economia criativa em valor estratégico.
Ao liderar esse ranking — à frente da própria capital —, Niterói consolida uma imagem de cidade capaz de dialogar com tendências contemporâneas de desenvolvimento urbano e cultural.
Nesse contexto, a realização de um evento global como o show de Shakira, a poucos quilômetros de seu território, amplia esse capital simbólico e reforça sua inserção no circuito regional de consumo, turismo e circulação de pessoas. Ainda que de forma indireta, a cidade passa a integrar o ecossistema econômico e reputacional que se forma em torno desses grandes espetáculos, potencializando sua visibilidade e sua capacidade de atrair investimentos e novos públicos.
O post Show de Shakira no Rio expõe força do Brasil no cenário global e movimenta a economia apareceu primeiro em Cidade de Niterói.
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